A Terra não está tremendo mais, dizem sismólogos - Resenha crítica - 12min Originals
×

Novo ano, Novo você, Novos objetivos. 🥂🍾 Comece 2024 com 70% de desconto no 12min Premium!

QUERO APROVEITAR 🤙
63% OFF

Operação Resgate de Metas: 63% OFF no 12Min Premium!

Novo ano, Novo você, Novos objetivos. 🥂🍾 Comece 2024 com 70% de desconto no 12min Premium!

103 leituras ·  4 avaliação média ·  36 avaliações

A Terra não está tremendo mais, dizem sismólogos - resenha crítica

translation missing: br.categories_name.radar-12min

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

Editora: 12min

Resenha crítica

A sequência que acendeu o alarme

Em pouco mais de seis semanas, a lista ficou difícil de ignorar. Em 24 de junho, dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 abalaram a Venezuela com segundos de diferença. No fim de julho, um sismo de magnitude 7,1 atingiu o sul do Japão. Em 10 de agosto, foi a vez da Colômbia, com magnitude 7,4 — um dos terremotos mais graves do país nos últimos 50 anos, que danificou construções em Cali, Pereira, Manizales e Bogotá e deixou mais de 200 mortos, segundo o EL PAÍS. Cinco dias depois, magnitude 7,7 na ilha de Flores, na Indonésia. Depois, tremores menores em Granada e na Andaluzia, na Espanha, e um sismo de magnitude 7,2 no Peru, sentido de cidades amazônicas às andinas, informou o Instituto Geofísico do Peru.

A pergunta circulou em vários países ao mesmo tempo, com a mesma formulação: a Terra entrou numa fase mais ativa? Sismólogos de institutos diferentes — na Espanha, no Chile, na Colômbia, nos Estados Unidos — responderam de forma quase idêntica. Não há evidência de que a atividade tectônica global tenha aumentado.

Por que parece padrão e é estatística

O ponto de partida é uma média que quase ninguém conhece. Ocorrem no planeta, em média, cerca de 16 terremotos de magnitude 7 ou superior por ano — aproximadamente um a cada três semanas, segundo estimativa do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, atualizada em fevereiro deste ano. A sismóloga americana Suzan Van der Lee, da Universidade Northwestern, cita número próximo: cerca de 15 por ano acima de magnitude 7, e uns 150 acima de 6. Dentro dessas cifras, vários eventos grandes coincidirem numa mesma semana é incomum, mas perfeitamente possível.

E a média convive com oscilações grandes. Ainda segundo o USGS, 2010 teve 23 grandes terremotos; 1989 registrou seis. Uma diferença dessa dimensão mostra como poucos meses podem produzir a impressão enganosa de tendência.

A analogia usada pela catedrática espanhola María Belén Benito Oterino, da Universidade Politécnica de Madri, é a moeda: a chance de cara e coroa é a mesma, e ainda assim saem várias caras seguidas — sem que a moeda tenha mudado. Com terremotos acontece algo parecido: há períodos com vários eventos grandes e outros relativamente tranquilos, sem que a taxa global se altere. As análises estatísticas do catálogo mundial de sismos de magnitude 7 ou mais mostram que os aparentes agrupamentos globais podem ser explicados pela variabilidade aleatória somada às sequências locais de réplicas.

Falta ainda um mecanismo físico que sustentasse a hipótese contrária. As placas tectônicas se deslocam alguns centímetros por ano, acumulando tensão nas bordas por décadas ou séculos até a rocha romper. Mas esse processo não é sincronizado: uma falha nos Andes, outra no Caribe e outra no sul da Península Ibérica respondem a contextos tectônicos diferentes. Não se conhece nenhum mecanismo capaz de acelerar simultaneamente o movimento das placas no planeta inteiro e disparar, em semanas, uma onda mundial de grandes terremotos.

Quando terremotos são conectados — e quando não são

A resposta muda quando se reduz a escala. Depois de um grande terremoto, é comum que ocorram vários sismos menores na mesma região: as réplicas. A ruptura principal altera as tensões nas rochas ao redor e favorece novas rupturas, com frequência que costuma diminuir com o tempo. No caso da Indonésia, observou-se uma réplica até dois dias depois, relata Arturo Belmonte, pesquisador da Universidade de Concepción, no Chile, que recomenda cautela nas 24 horas seguintes a qualquer evento sísmico.

Caso distinto é o do par sísmico: dois terremotos de magnitude comparável, com epicentros próximos e separados por um intervalo curto. Os dois eventos venezuelanos de junho, com cerca de um minuto de diferença, são o exemplo — possivelmente dentro do mesmo sistema de falhas, segundo Van der Lee, com o primeiro tendo alterado ligeiramente as tensões da zona e ajudado a desencadear o segundo. O mecanismo tem nome: transferência de esforços de Coulomb.

O que esse mecanismo não faz é viajar. As variações estáticas de esforço diminuem rapidamente com a distância e afetam sobretudo a área próxima à ruptura. Por isso a relação possível entre os dois sismos venezuelanos não explica o da Colômbia — que, além de distante, tem origem diferente: a sismicidade venezuelana está associada ao deslocamento horizontal entre a placa do Caribe e a sul-americana, enquanto boa parte da colombiana vem de processos de subducção, em que uma placa oceânica mergulha sob outra. Van der Lee observou que os terremotos registrados num mesmo dia na Venezuela, no Japão e nos Estados Unidos ocorreram em limites tectônicos distintos, por processos geológicos independentes.

Carlos Alberto Vargas, professor da Universidade Nacional da Colômbia, resume com outra imagem: duas tábuas de madeira sob esforço; uma quebra, e isso não é causa nem efeito da outra.

O limite real da ciência

Existe uma razão pela qual essa discussão é tão desconfortável: não é possível prever terremotos. O USGS afirma que "nem o USGS nem qualquer outro cientista jamais previu um grande terremoto" e não espera saber como fazê-lo num futuro próximo.

A dificuldade é física. As placas têm entre 10 km e 250 km de espessura, e o poço mais fundo já perfurado, o Superprofundo de Kola, na Rússia, chegou a 12.262 metros — uma fração mínima disso. Sismômetros, GPS e medições de deformação captam apenas sinais indiretos e superficiais. Prever o instante exato da ruptura equivale a prever quando um graveto sob pressão vai quebrar: depende de microdefeitos invisíveis espalhados por uma área enorme. Sinais precursores investigados, como aumento de radônio na água ou comportamento anômalo de animais, têm pouca evidência que os ligue de fato aos tremores, segundo editorial da Nature Computational Science — e muitos terremotos ocorrem sem nenhum deles.

O que se consegue fazer é outra coisa: estimar a probabilidade de um sismo de determinada magnitude numa falha específica dentro de uma janela de décadas ou séculos, e emitir alertas automáticos de segundos a minutos depois que a ruptura já começou, detectando as ondas mais rápidas antes das destrutivas — tempo suficiente para parar trens e desligar gasodutos, dificilmente para alertar a população a tempo.

O que realmente aumentou

Se a Terra não treme mais, o que mudou? Duas coisas. A primeira é a capacidade de observar: existem hoje muito mais instrumentos, e o National Earthquake Information Center localiza cerca de 20 mil terremotos por ano, algo como 55 por dia. Comparar mecanicamente os registros do início do século XX com os atuais transforma avanço tecnológico em aparente mudança geológica. Some-se a isso a velocidade da informação — "hoje em dia as notícias são instantâneas", diz Belmonte — e a tendência humana de buscar padrões: quando um terremoto destrutivo ganha destaque, prestamos mais atenção no seguinte.

A segunda mudança é a que decide o tamanho da tragédia. Magnitude, sozinha, não determina impacto: profundidade, distância das populações, tipo de terreno e, sobretudo, vulnerabilidade de edifícios e infraestruturas fazem dois sismos parecidos terem consequências muito diferentes. Muitos grandes terremotos passam despercebidos por ocorrerem no fundo do oceano, a grande profundidade ou longe de áreas habitadas.

La Guaira, na Venezuela, dá a medida disso. Dois meses depois dos sismos de junho, um primeiro censo apresentado pelo governador Alejandro Terán em 23 de julho apontou apenas 1.752 negócios em funcionamento dos quase 7.000 que existiam antes. Uma pesquisa da Câmara de Comércio local encontrou queda de 80% na receita do setor produtivo. O turismo, que ocupava mais de 15.000 pessoas, praticamente desapareceu. A sismóloga Arancha Izquierdo, da rede sísmica espanhola, formula o ponto de forma direta: não basta antecipar o imprevisível, é preciso assumir que "a vulnerabilidade se constrói na superfície".

O que se sabe — e o que ainda falta descobrir

Está estabelecido que não há evidência de aumento da atividade sísmica global; que a coincidência temporal de grandes sismos é compatível com variabilidade aleatória; que réplicas e pares sísmicos existem, mas só em escala local, entre estruturas geológicas próximas; e que o impacto de um terremoto depende menos da magnitude do que de onde e sobre o que ele acontece.

Segue em aberto o essencial: quando e onde ocorrerá o próximo grande sismo. A ciência explica onde eles tendem a ocorrer, não quando.

Daí o que é possível fazer na próxima vez que um terremoto forte virar notícia. Antes de supor uma tendência, vale checar a distância. Se o novo evento está a centenas ou milhares de quilômetros de outro recente, os especialistas ouvidos nas reportagens são explícitos: não há base científica para conectar os dois. Se está a poucos quilômetros e poucos dias, aí sim pode ser réplica ou par sísmico — fenômeno local, explicável e com mecanismo conhecido. A pergunta seguinte, mais útil que "a Terra está tremendo mais", é "essa região está preparada para o que já era esperado?". Colômbia e La Guaira mostram por quê: a rede sismológica colombiana, com 85 sensores, detectou 23.774 sismos no ano passado, quase todos imperceptíveis — a atividade era conhecida; o que variou foi o que estava construído em cima dela. Vargas defende que políticas públicas não sejam "meramente reativas" a desastres, mas esforço constante de ajustes. E Izquierdo lembra que isso não é problema exclusivo da América Latina: há países que podem estar hoje muito pior preparados que vários das Américas.

Leia e ouça grátis!

Ao se cadastrar, você ganhará um passe livre de 7 dias grátis para aproveitar tudo que o 12min tem a oferecer.

Quem escreveu o livro?

Agora o 12min também produz conteúdos próprios. 12min Originals é a ferram... (Leia mais)

Aprenda mais com o 12min

6 Milhões

De usuários já transformaram sua forma de se desenvolver

4,8 Estrelas

Média de avaliações na AppStore e no Google Play

91%

Dos usuários do 12min melhoraram seu hábito de leitura

Um pequeno investimento para uma oportunidade incrível

Cresca exponencialmente com o acesso a ideias poderosas de mais de 2.500 microbooks de não ficção.

Hoje

Comece a aproveitar toda a biblioteca que o 12min tem a oferecer.

Dia 5

Não se preocupe, enviaremos um lembrete avisando que sua trial está finalizando.

Dia 7

O período de testes acaba aqui.

Aproveite o acesso ilimitado por 7 dias. Use nosso app e continue investindo em você mesmo por menos de R$14,92 por mês, ou apenas cancele antes do fim dos 7 dias e você não será cobrado.

Inicie seu teste gratuito

Mais de 70.000 avaliações 5 estrelas

Inicie seu teste gratuito

O que a mídia diz sobre nós?